Aproximando cidadãos
Copenhague termina com acordo frouxo, mas a sociedade civil não vai deixar por isso

Exposição fotográfica de Helena Christensen sobre os efeitos das mudanças climáticas no Peru chama atenção para o fato de que os paises pobres serão os mais afetados. As fotos estavam a mostra numa praça no centro de Copenhague, como parte da programacao cultural paralela a Cop-15.
À uma hora da manhã do dia 18 para 19, na saída do Bella Center, manifestantes ainda protestavam. Não era uma multidão, mas algumas dezenas de pessoas que resistiam ao frio de cinco graus negativos e ao contato dos pés com a neve derretida (que muitas vezes invade os sapatos), para exclamar: “Climate chame, go back and sign” (vergonha climática, voltem e assinem) para presidentes e primeiros-ministros – a maioria deles sequer estava ali mais. Depois de uma longa reunião entre os EUA e os países do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China), que resultou no Acordo de Copenhague, o presidente Lula deixou o país levando junto os dois chefes da negociação brasileira, a ministra Dilma Roussef e o embaixador Luiz Alberto Figueiredo. Obama também foi embora.
O que fez com que os ativistas fossem até a porta do centro de convenções no início daquela madrugada foram as informações que vazavam pela internet sinalizando que Copenhague havia fracassado. O intento de se firmar um acordo justo e com força de lei para salvar o mundo foi, no mínimo, postergado. Os presidentes pegaram o avião para fora da Dinamarca após eliminar do texto as metas obrigatórias de redução de emissões de gases de efeito estufa, tanto para os países desenvolvidos quanto para os em desenvolvimento. Já estava rompido aí o que se acreditava ser o cerne de um acordo com resultados efetivos. Até o início da madrugada, uma frase ainda incluía uma meta global de 80% de redução de poluentes até 2050 – que também foi apagada. Uma das únicas questões que parecem ter gerado consenso foi o aumento da temperatura global, que não pode passar dos 2 graus Celsius segundo o texto – as tentativas, principalmente dos países insulares, de diminuir esse número para 1,5 graus não vingaram. O Acordo de Copenhague também fala em financiamento: 10 bilhões por ano até 2012, chegando a 100 bilhões em 2020 – um avanço, mas há detalhes sobre a fonte do dinheiro. Cita ainda o uso de mecanismos como o Redd +, para financiar a manutenção e conservação de florestas, que era um dos interesses do Brasil.
O fato do texto final ter sido decidido em uma reunião entre os EUA e o Basic desagradou muitas nações. Tuvalu, Venezuela, Bolívia, Cuba e Sudão foram algumas das que se colocaram contra o texto final. Como para ter validade o acordo precisa ter a aprovação de todos, foi preciso lançar mão de um mecanismo legal, a chamada “tomada de nota”, que faz com que o acordo tenha valor suficiente para funcionar, mas não seja obrigatório.
Esses debates ocorreram durante a madrugada, quando se formou um comitê com cerca de 30 representantes mundiais para finalizar o texto que os presidentes haviam deixado. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, foi falar pelo Brasil. Em um intervalo, apareceu no hall principal do Bella Center, onde foi cercado por jornalistas. Basicamente o que disse à maioria deles é que o acordo que se estava finalizando dentro da sala era insuficiente e que os Estados Unidos foram os maiores criadores de entrave.
O clima geral era de frustração. Afinal, havia pessoas ali que trabalharam intensamente por dois anos (desde a Cop-13, em Bali, quando se marcou para Copenhague a construção de um acordo climático) e, mais intensamente ainda, nessas duas últimas semanas. Pelo corredor se ouviam frases como “agora vou ter que arrumar outra coisa para fazer da vida”, “o Lula disse que passaria um anjo por aqui – só se foi o anjo da morte” ou “eu não quero ser parte de uma espécie em extinção”.
Mas também houve ponderações. O furor em torno da Cop-15 fez com que quase às vésperas do encontro diversas nações – incluindo Brasil, China, Índia e Estados Unidos – lançassem suas metas voluntárias de redução de emissões. Durante a conferência, a União Europeia também aumentou suas metas pré-anunciadas de 20% para 30% de redução de gases de efeito estufa até 2020, em relação a 1990. Todas essas promessas podem evoluir em uma reunião que se pretende marcar para meados de 2010 em Bonn, na Alemanha. E, quem sabe, tornarem-se metas com força de lei na Cop-16, marcada para dezembro do ano que vem na Cidade do México. Representantes de campanhas globais já avisam que a pressão da sociedade vai continuar (clique aqui para participar do abaixo assinado “Not Done Yet”, da Tck Tck Tck). Pelo menos na próxima Cop os ativistas poderão usar até biquini.
Hoje por volta da hora do almoço, em frente ao novo QG das ONGs, que foram, em sua maioria, proibidas de entrar no Bella Center, onde transcorre o último dia da Cop-15, houve uma manifestação em resposta à grande parte dos discursos dos chefes de estado nesses últimos dois dias de conferência. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou hoje pela manhã e sua fala não agradou em nada. Basicamente disse que os EUA não arredam o pé em relação a sua meta pouquíssimo ambiciosa (4% em relação a 1990, enquanto a União Europeia oferece 30% e o IPCC recomeda 40%) de diminuição de gases do efeito estufa. Já o presidente Lula só ganhou popularidade, pois prometeu em seu discurso matinal (depois de uma fala aguada na tarde de ontem) mundos e fundos – literalmente, pois o presidente falou na participação do Brasil no financiamento da adaptação e mudança climática. Assista ao vídeo desse espirituoso protesto, cujo mote era “Climate Shame”, ou vergonha climática – com direito a vivas pelo Brasil por parte de uma simpática senhora canadense, que se diz envergonhada de seu país. Logo antes dessa manifestação, dentro do QG aconteceu o Colossal Fossil – versão final da premiação Fossil of the Day Awards, que acontece diariamente nas Cops para “congratular” os países que mais atrapalharam as negociações no dia. A versão colossal vale pelo ano todo. And the winner is…Canada!
Brasileira encarregada de seguir os negociadores e contar o que está acontecendo, diz que a Cop-15 não está sendo transparente. Os “seguidores” da Índia, China e Estados Unidos falam sobre a posição de seus países e o que pensa a sociedade civil
Juliana tem 24 anos. E uma missão muito especial nessa Cop-15: contar (quase) tudo o que acontece nas negociações brasileiras aqui no Bella Center para pessoas comuns, que não são especialistas no assunto, mas estão (e devem estar) de olho no que nossos representantes estão decidindo por nós. Juliana acredita que cada cidadão nesse mundo tem o direito de saber o que os líderes mundiais (no fim, pessoas como nós) estão negociando em nossos nomes e como eles estão fazendo isso. “Ao compartilhar esse tipo de informação, podemos aumentar a pressão por um acordo justo ambicioso e vinculante em Copenhague”, escreveu.
Formada em relações internacionais, Juliana Russar é uma das 13 trackers do projeto internacional “Adote um Negociador” (na versão em inglês, Track a Negotiator), uma ação criada pela campanha internacional Tck Tck Tck (no Brasil, Tic tac Tic Tac) para tornar os processos em Copenhague mais transparentes ao público. Juliana vêm acompanhando as negociações climáticas desde 2007 – e tornou-se uma tracker em agosto desse ano, logo que foi criado o projeto. Ela esteve também nas duas últimas Cops e acompanhou as reuniões preparatórias para a Cop-15, que ocorreram ao longo do ano em localidades como Bangkok, na Tailândia, e Barcelona, na Espanha. Em um papo ontem à noite, quando ela já aguardava por mais de sete horas em uma mesma sala o início de uma reunião, Juliana conta como as coisas andam e explica porque a Cop-15 está sendo menos transparente do que as outras.
A seguir os trackers de três países chaves na Cop-15 (Índia, China e Estados Unidos) falam sobre o que pensam da posição de seus países na conferência e o que diz a sociedade civil de suas nações.

A maquiadora “tira o brilho” de Bjorn Lomborg, mas isso não opaca seu ceticismo. Ao fundo, de terno e gravata amarela, o secretário executivo da Convenção do Clima, Yvo de Boher. Os dois participaram ontem do debate promovido pela CNN e Youtube.
Ontem rolou aqui na Cop-15 um debate promovido pela CNN e o Youtube, resultado do projeto Raise Your Voice, que talvez seja um dos mais representantivos em termos de estimular a participação de pessoas comuns nessa conferência que pretende decidir, em última instância, sobre a vida de todos. Nos últimos meses, pessoas de todas as partes do mundo foram convidadas a enviar suas perguntas – escritas ou em forma de vídeo – para entendidos das mudanças climáticas. As questões seriam respondidas ao vivo em um debate, que ocorreu ontem logo depois do almoço, com transmissão o vivo pelo Youtube e, a partir de hoje, também televiosionado pela CNN. As peguntas deveriam ser enviadas em inglês, mas muitos dos mais de 13 mil vídeos postados (e assistidos, ao todo, mais de 7 milhões de vezes) vieram com legendas e áudio em outras línguas – foram mais de 15 idiomas diferentes. As pessoas podiam votar nas suas perguntas preferidas. Dentre as mais populares, foram eleitas as efetivamente direcionadas ontem no debate ao secretário-executivo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mundanças Climáticas, Ivo de Boher, ao colunista do New York Times e vencedor do Pulitzer Prize Thomas Friedman, Bjorn Lomborg, autor do livro Cool It e conhecido como o rei dos céticos por fazer parte da turma que critica a corrida contra o aquecimento global, e Darryl Hannah, símbolo de artistas-ativistas nos EUA – para dar uma popularizada na coisa. Diretamente de Genebra, o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan teve participação especial via TV.
Vale a pena assistir ao debate. Como se tratava da gravação de um programa de TV (inclusive com intervalos para passar pó compacto e tirar o brilho da testa de Yvo de Boher), os debatedores tinham tempo contado para dar as respostas – o que pode ser um alívio em uma conferência em que, em certas reuniões, discute-se 40 minutos sobre se uma frase deve ou não entrar no artigo tal para, no fim, apagar tudo. O debate esquenta em alguns momentos, principalmente entre o colunista do New York Times e o cético – que parece só querer contrariar. Preste atenção também na elegância de Yvo de Boher, que nunca pede para falar ou interrompe alguém, mas, quando chamado fala pouco e diz muito. Pura diplomacia. Ele ganha a palavra várias vezes quando a apresentadora percebe que, quieto em sua cadeira, Yvo balança a cabeça como quem não concorda com o que está sendo dito. Além de ir ao ar a partir de hoje na CNN, a promessa é que o programa estará disponível ainda hoje no canal da Cop-15 no Youtube. Lá você também encontra todos os vídeos-perguntas enviados, divididos também por categorias como “os mais vistos” e “os mais bem avaliados”. E aqui mesmo nesse blog, você pode assistir agora a uma pequena entrevista com Benjamin Kott, do Google sobre o projeto. Benjamin ressalta a importância da participação de quem não está dentro do Bella Center nessa Cop-15.
Terceiro dia na Cop-15, já dá para sentir como é a dinâmica das coisas. Desde ontem, a entrada para representantes de ONGs foi restrita. Afinal, foram inscritas cerca de 35 mil pessoas e aqui dentro só cabem 15. Na manifestação que reuniu 100 mil pessoas nas ruas de Copenhague no último sábado, 800 manifestantes foram detidos – e dizem que 200 pessoas foram deportadas. Ontem e hoje, a estação de metrô Bella Center foi fechada algumas vezes por lotação. Para chegar aqui foi preciso descer na estação anterior e caminhar (quando um colega desceu nessa tal estação, a polícia jogava gás lacrimogênio em ativistas). O que se diz nos corredores é que a espera na fila lá fora foi de 5 a 8 horas – independente do país de origem ou idade da pessoa. Hoje encontrei o Carlos Nobre, cientista do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e um dos integrantes brasileiros do IPCC. Ele contou que tentou entrar no Bella Center desde segunda-feira, quando não conseguiu porque havia chegado tarde. Ontem, após duas horas na fila, desistiu. Hoje, então, é seu primeiro dia aqui.
Dia diferente dos outros. De cara, dá para ver que a coisa ficou séria. Bolinhos de jornalistas, câmeras e microfones em punho, ao redor de autoridades. Mais pessoas de terno e gravata e menos de camisetas com dizeres como “There is no Planet B”. Sim, começaram as chamadas reuniões de alto-nível. Tentei entrar numa sala, mas informaram que ontem as delegações receberam um segundo crachá para distribuir às poucas pessoas que estariam autorizadas a ingressar nessas plenárias. Os nomes de Hugo Chávez e Evo Morales constam na programação de hoje. Ontem, teve Príncipe Charles. E devem ter muitos mais por aí, quem sabe, na baia ao lado. O jeito para a maioria das pessoas acompanharem as discussões passou mesmo a ser as TVs espalhadas pelo Bella Center, com transmissão ao vivo do que se diz das portas para dentro.

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o embaixador Figueiredo (que chefiava as nagociações brasileiras até a chegada da ministra), em coletiva de imprensa ontem. Todo dia às 18h30 o Brasil dá essa coletiva, em que podem entrar não só a imprensa como toda delegação brasileira.
Resumindo: a programação aberta a quase todos se reduziu. Ok, sejamos justos: os side events continuam por aí. Mas quem quer saber de projetos hiperlocais enquanto líderes mundiais estão decidindo o futuro da humanidade a distância de uma parede? Ontem sim os side events foram bem animados. Houve, na mesma sala, divindo o mesmo tempo e a mesma mesa, o governador do estado de São Paulo José Serra e o governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger. Não consegui pegar um dos ingressos que foram distribuídos horas antes. Mas fui a um debate promovido pela CNN e youtube (vou postar logo um vídeo sobre esse projeto) com nomes como Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e Bjorn Lomborg, autor do livro Cool it e conhecido como o rei dos céticos, por ser da turma que não concorda com a corrida contra o aquecimento global. O ex-vice-presidente dos EUA e prêmio Nobel Al Gore também falou ontem. Os ingressos também tinham se esgotado (esses dois eventos surgiram de repente!). Sorte que um colega conseguiu entrar e filmou o discurso final de Gore, em que ele fala “de coração a coração”, clamando para que os líderes pensem em quem são e decidam pela coisa certa. Na entrada do Bella Center hoje, uma mulher gritava a quem passava mostrando o crachá: “today, don’t be stupid, be smart”. É o que conclamam todos que ficaram de fora do Bella Center. E é o que também esperam aqueles que ficaram pra fora das salas de decisões aos líderes.
Vídeo e foto gentilmente cedidos por Marcelo Borja
Como funciona a Cop-15
O Bella Center, local onde acontece o evento, é um espaço de exposição enorme, com várias salas e galpões. Logo na entrada há um salão enorme, o Hall H, cheio de stands de ONGs, universidades e projetos ambientais com mais de 200 exposições. Ali é possível conhecer desde a Alliance for Rural Eletrification (Are), associação internacional que trabalha para o acesso à energia renovável em países em desenvolvimento até a Tck Tck Tck, campanha internacional para que cidadãos pressionem os governantes nessa Cop-15 (a campanha transcorreu nos últimos meses com representantes inclusive no Brasil).
Saindo dali e seguindo por um corredor à direita se chega ao stand onde a cada manhã é distribuída a programação do dia – e também os drafts, textos que estão sendo gerados nas negociações. As atividades na Cop-15 se dividem entre: plenárias (normalmente uma mesa redonda assistida por várias pessoas, são salas imensas, cheias de cadeiras), as reuniões (essas só são abertas para as delegações – observadores e ONGs não podem entrar), e os side events, ou eventos paralelos. Só de side event durante a Cop são mais de 250! São países apresentando seus projetos e ideias. Como se não bastasse, ainda há as programações dentro das salas dos países – localizadas no setor de delegações, que fica depois de um outro hall onde se localizam as plenárias e salas de reuniões. Resultado: com tanta coisa, muitos horários se encavalam e é preciso escolher. E como o espaço é muito grande, o tempo de deslocamento de um hall para outro pode ser grande (tipo 15 minutos). Ah, e a programação pode mudar instantaneamente. De repente, algumas pessoas passam distribuindo pnafletos de um evento novo que acaba de surgir.
Diferentemente de muitas temáticas mundiais, as mudanças climáticas não trarão consequencias só para uns ou outros. Trata-se de uma questão global que rompe com paradigmas bem arraigados, como a própria ideia de soberania nacional. Protegido inclusive pela Convenção do Clima das Nações Unidas (tanto que consta na primeira página do documento como uma condição para todo o restante) esse conceito dá às nações a liberdade de cuidarem do próprio nariz, assim, de forma independente, como se fossem organismos desconetados das outras células, no caso, outras nações. Para o presidente do Instituto Ethos, de ética empresarial, Ricardo Young uma das questões que mais emergem com a Cop-15 é justamente a ideia de governança global – que o mundo é um só e as decisões devem ser tomadas pensando em todas as nações como um todo. Ricardo acredita que o conceito de soberania nacional é um dos que mais vai mudar nos próximos 20 anos. Acompanhe nesse vídeo sua análise sobre como o fato dos países pensarem em si como uma entidade separada de um todo atravanca boas medidas.
Um canadense filho de portugueses e que morou no Brasil por mais de três anos (é ecólogo e fez mestrado na USP!) explica porque, afinal, seu país não para de vencer a premiação menos invejada da Cop – apesar de ser um dos momentos mais descontraídos da conferência. É o Fossil of the Day, concurso criado pela Climate Action Network (Can), uma aliança de ONGs mundiais, para mostrar quem são os países que mais atrapalham as negociações a cada dia. Há primeiro, segundo e terceiro lugares. E o Canadá já esteve em todos. Um dia, conseguiu estar nos 3 ao mesmo tempo. Hoje, pela primeira vez, os EUA levaram o primeiro troféu – por sua meta de redução de apenas 4% em relação a 1990 e por não apoiar a ideia de financiamento de longo prazo para países em desenvolvimento. Porém, outra vez, o Canadá subiu ao pódio, dividindo o terceiro lugar com a Arábia Saudita. Integrante da Canadian Youth Delegation, que reúne mais de 20 jovens canadenses de diversas formações, Dean Medeiros revela que a posição da maioria dos canadenses é contrária a do governo, que não está representando o desejo real dos cidadãos (pelo visto, isso acontece no mundo inteiro). Conta ainda como ele e mais um bucado de jovens está agindo para tentar mudar a situação. Seu desejo é que o Canadá se torne um líder do combate às mudanças climáticas. Aí até a pequena sereia aplaude.

Fila quilométrica na porta do Bella Center, o centro de conferências onde acontece a Cop-15, hoje pela manhã. Média de espera para retirar o crachá: 4 horas - congelando ao ar livre

Sorte que a associação dos produtores de energia eólica oferecia capuccino e chocolate quente gratuito para quem estava na fila

Não é um bazar de inverno da HM, mas a chapelaria do Bella Center. Pela quantidade de casacos dá para entender porque a partir dessa terça a entrada de pessoas será restrita

Nosso Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, dando entrevista. Foi a chegada dos líderes mundiais que fez a coisa esquentar no Bella Center hoje. Lotou

Respeito à religiosidade ou "se a coisa apertar só nos resta ajoelhar e rezar?"

Tradicionalmente nas Cops é assim: na primeira semana, vão os negociadores e articuladores (conheça aqui quem são os do Brasil). Há vários debates e discussões que devem resultar em documentos para serem trabalhados por ministros e chefes de estado, que chegam na última semana (o Lula, por exemplo, vai falar no dia 17. Obama estará lá no dia 18), quando começam as chamadas negociações de alto nível. Mas como a Cop-15 é atípica, a primeira semana também deu o que falar. Segue um breve resumo dos assuntos mais quentes do que rolou na primeira semana
O não documento da Dinamarca
A primeira bomba caiu em Copenhague na terça-feira quando o jornal britânico The Guardian publicou o texto de um documento não oficial atribuído ao governo da Dinamarca, com apoio do Reino Unido e dos EUA, que delineava uma proposta de acordo antes mesmo das negociações começarem. O texto sugeria forçar os países em desenvolvimento a assumirem metas compulsórias de redução das emissões, não permitindo que eles emitissem mais que 1,44 toneladas de carbono per capta até 2050, enquanto os países ricos poderiam emitir 2,67 toneladas, ou seja, quase o dobro. O texto causou furor entre os países emergentes. A China reagiu se articulando com países do G77 para escrever outro documento. (leia aqui uma boa análise dessa confusão).
Um arquipélago no Pacífico pára a Cop
No Bella Center, espaço onde acontece a conferência, também houve protestos. Representantes da sociedade civil africana saíram pelos corredores gritando que “2 graus era suicídio”. Eles querem que se chegue a um consenso de que a temperatura do planeta pode aumentar no máximo 1 grau Celsius em relação aos níveis pré-industriais até 2100. O arquipélago de Tuvalu é outro que sofre as conseqüências do aquecimento global e corre o risco de ser banido do mapa. Na terça-feira, o país pediu a suspensão temporária das negociações devido a um impasse: a falta de consenso a respeito de seu pedido de criação de um grupo para discutir sua proposta, apresentada há seis meses, para a nova fase do Protocolo de Quioto. Houve manifestações nos corredores de apoio a Tuvalu. Na sexta-feira, a Aliança das Pequenas Ilhas do Sul (AOSIS, na sigla em inglês) apresentou a tal proposta, que culminaria com a criação de um Protocolo de Copenhague, com inclusão dos EUA nas metas de redução.
Estados Unidos marcam posição
Ainda no início da semana, finalmente, os EUA, via sua agência ambiental, a EPA, assumiram o que o mundo todo já sabia: os gases de efeito estufa emitidos pela atividade humana estão aquecendo o planeta. Foi um primeiro passo. Mas de meados para o final da semana, o principal negociador norte-americano, Todd Stern, deixou bem claro que seu país rechaça a ideia de responsabilidade histórica, pela qual os países que mais emitiram poluentes ao longo do tempo têm maior responsabilidade no aquecimento global. A alegação é que, até então, esses efeitos não eram conhecidos. O negociador também afirma que os EUA não aceitarão uma proposta que não inclua os países em desenvolvimento e que não dá para trabalhar com uma meta máxima de aumento de temperatura de 1,5 graus Celsius, proposta por alguns países. “Temos que misturar ciência com pragmatismo”, afirmou.
Primeiro texto-base para um acordo
Na sexta-feira pela manhã, saiu o primeiro documento preparatório para as negociações da semana que vem. Trata-se de um arquivo de sete páginas, cotado para ser base de um acordo, elaborado pelo grupo de Ações Cooperativas de Longo Prazo – mais conhecido por sua sigla em inglês: AWG-LCA -, que é vice-presidido pelo chefe das negociações brasileiras, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo. (Na Cop-15 há ainda outro grupo de trabalho, o AWG-PK, que cuida do Protocolo de Quioto). Exemplos do que o documento aponta: redução global de emissão de gases do efeito estufa de 50%, 85% ou 90% até 2050; redução de emissões de países desenvolvidos entre 25% e 40% em relação a 1990; para os países em desenvolvimento, desvio no crescimento das emissões entre 15% e 30% em relação ao que seria emitido em 2020 se nada fosse feito. O documento, que também levanta a possibilidade de se limitar a temperatura máxima da terra em 1,5 grau Celsius, não foi muito bem recebido pelos EUA e Japão, de acordo com reportagem do O Estado de São Paulo de ontem.
Up grade na meta da União Europeia
Ainda na sexta, a União Europeia anunciou o aumento de sua meta de corte de emissões, de 20% para 30% em relação aos níveis de 1990. Falou ainda em repasse de verba para os países em desenvolvimento: 7,2 bilhões de euros distribuídos nos próximos 3 anos. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, a verba representa 30% do total que se calcula necessário para o período.
Entenda porque a conferência climática na Dinamarca é tão importante para o futuro da humanidade

Bicicletas disponibilizadas gratuitamente para os participantes da Cop-15 experimentarem o meio de transporte símbolo da capital dinamarquesa
Desde a última segunda-feira, 07, representantes de 192 nações estão reunidos em Copenhague, num frio de rachar, tentando impedir que a temperatura do planeta aumente 2 graus. É que, segundo previsões do IPCC, órgão ligado à ONU que reúne mais de mil cientistas de todo o mundo, se, até 2100, nosso planeta esquentar mais que 2 graus em relação à era pré-industrial o mundo estará fadado ao fracasso: mais secas onde já é seco, chuvas torrenciais e suas temíveis consequencias, falta de comida, extinção de espécies e submersão de cidades e até países inteiros devido ao derretimento de gelo e aumento do nível do mar.
A grande expectativa em torno da 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que vai até o dia 18 na capital dinamarquesa, se deve primeiramente a um fato: há dois anos, acordou-se que nessa conferência seria decidido o que fazer após 2012, quando termina a primeira fase do Protocolo de Quioto, documento que previa redução obrigatória de emissões de gases de efeito estufa por países desenvolvidos (saiba mais em “Protocolo de Quioto”, adiante nesse post). Acontece que o protocolo foi escrito em 1997 e ratificado em 2005. E, de lá pra cá, a coisa apertou – talvez esse seja o fato que mais leva essa Cop ser tão diferente das outras.
Em 2007, o IPCC publicou seu quarto e mais amedrontador relatório, com um dado no mínimo instigante: para que a temperatura global não aumente mais do que 2 graus Celsius, a concentração de CO2 na atmosfera deve ser no máximo de 450 ppm (partes por milhão). Para isso, a emissão geral de CO2 nesse século deve ficar em 18 gigatoneladas por ano. Acontece que, a média atual ultrapassa as 40 gigatoneladas/ano. Sendo assim, ainda que os países ricos zerassem agora mesmo suas emissões (ou seja, se extinguissem sua indústria, parassem de plantar, de criar animais, de gerar energia elétrica, enfim, deletassem as atividades humanas da face de seus territórios), veríamos a temperatura global crescer mais do que o recomendado. Portanto, os países em desenvolvimento também precisariam contribuir. Mas com quanto? De forma voluntária ou obrigatória? Esse é um dos eixos centrais das negociações que ocorrem em Copenhague e que podem levar a diferentes caminhos, que passam pela alteração ou até anulação do Protocolo de Quioto e a construção de um novo documento, que congregue metas mais agressivas e a participação de mais países.
Quem dá mais
Veja as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa anunciadas antes da Cop-15 por diferentes países. Repare que as métricas não são as mesmas, o que só confunde. Pelo menos uma coisa é comum em todos os casos: o deadline, 2020.

*A meta da China, na verdade, é um engodo. Reduzir entre 40% e 45% a intensidade de carbono por unidade de PIB em relação a 2005, sendo que a economia deles só cresce, no fim das contas significa: “prometemos dobrar nossas emissões até 2020”. Acompanhe aqui essa conta.
** Na sexta-feira, 11, a União Europeia anunciou um aumento de sua meta de redução de 20% para 30%.
***O equivalente a uma redução de apenas 4% em relação ao nível de emissão de 1990.

Cop o que?
Foi no início dos anos 1990 que os líderes mundiais se atentaram para o fato de que os gases de efeito estufa (como o CO2 e o metano) emitidos por atividades humanas – como a indústria, a geração de energia e o desmatamento – estavam causando o aquecimento da terra. Foi ainda lá naquela época que se decidiu criar um órgão mundial para domar a situação. Nascia assim a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que foi assinada pelos primeiros países, também chamados de partes, veja só, na Eco-92, no Rio de Janeiro.
O texto da convenção prevê todos os princípios que norteiam as negociações internacionais em torno do aquecimento global e estipula que, a cada ano, os países signatários se reúnam para conferir o que vem sendo feito (e levantar novas sugestões para colocar a convenção em prática). Daí, para conferir a convenção (rá!) surgem as conferências. No jargão, são chamadas de Conferência das Partes, as Cops. O encontro que está acontecendo agora na capital da Dinamarca é sua 15ª edição.
Protocolo de Quioto
Para quem não se lembra, o Protocolo de Quioto surgiu em 1997 e foi ratificado em 2005, com assinatura de diversas nações do mundo, incluindo o Brasil e excluindo (com grande polêmica) os Estados Unidos, maior poluidor per capta do planeta. O documento previa um compromisso por parte de 37 países desenvolvidos de reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 5% em relação aos níveis de 1990. Baseado no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas – que determina que os países que historicamente mais emitiram, ou seja, os industrializados, devem pagar a maior conta – os países em desenvolvimento não tiveram uma cota obrigatória de redução.