Aproximando cidadãos
11 de novembro de 2010
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Amazônia
Manaus
TEDxAmazônia
O que eu vou escrever sobre o TEDxAmazônia depois de dois dias de comoção completa na internet com posts pipocando em tudo quanto é lugar? Resolvi contar uma história que ninguém ainda contou e prestar uma devida homenagem.
Há menos de um ano, ainda com o TEDxSão Paulo repercutindo pelo mundo e empolgados por terem realizado a façanha de trazer o primeiro TEDx ao Brasil, os sócios da Webcitizen se reuniram. O Helder propôs uma ideia ao Paulo e ao Barreto: fazer um TEDxAmazônia. “Sobre a Amazônia, Helder?”, não, na Amazônia. Lembro de ouvir o Paulo e o Barreto contando o que veio à mente: “É f… , ele vai fazer um TEDx na floresta”. E mais tarde, o mesmo pensamento passaria pela cabeça do recém chegado sócio, Rodrigo. “Gente, esses caras são malucos. Mais isso é genial!”

Resolvendo alguns quebra-cabeças
Uma vez definida a meta, começaram a pipocar sonhos. O Helder e o Barreto exibiam em seus iPads ideias incríveis, como construir um auditório flutuante, todo de bambu, no meio do Rio Negro. O Denis, um dos curadores do evento e diretor de conteúdo da Webcitizen, tirava da cartola cada dia um palestrante mais genial. Brainstorm bem feito, a próxima etapa era buscar apoio, patrocínio. É impressionante como dinheiro às vezes deixa a realidade mais dura. Buscar patrocínio para um evento deste tamanho já não é simples. Explicar aos patrocinadores que a participação seria horizontal, fora dos padrões dos eventos tradicionais e que eles precisavam, antes de qualquer outra coisa, comprar a ideia do TEDx, também foi um desafio. Muitos “nãos”, muitos “não entendi direito”. E não pensem que esse foi o maior desafio. A Lívia, diretora de relacionamento da Webcitizen, se lembra bem a dor de ler as inscrições que chegavam, emocionadas, e ter que votar contra ou a favor. Já imaginou pedir para pessoas contarem histórias de vida, sonhos, e não se sensibilizar?
Quando chegava em São Paulo, cheio de dúvidas, todo preocupado, o Barreto logo se derretia. “Era contagiante ver todo mundo se esforçando. Cansados, mas com um sorriso no rosto, dizendo que ia ser fantástico. Eu pensava: não tem outra opção, tem que dar certo!”

Equipe trabalhando até altas horas da noite
E a equipe ia crescendo e mais gente se juntando para ajudar. Os parceiros de caminhada como a Colmeia e a Guia agregavam cada vez mais apaixonados por essa ideia. Foram 255 pessoas envolvidas nessa ousadia. O número cabalístico para colocar o TEDxAmazônia de pé. Ou quase. Quatro dias antes do evento, um dos participantes quis impor as suas condições: o Rio Negro atingiu o menor nível dos últimos tempos, 15 metros abaixo do normal.
Muda tudo. O barco com gerador não tem mais como chegar ao hotel flutuante. O píer, em Manaus, de onde sairiam os barcos, fica desativado com a baixa do rio. É preciso buscar um novo píer e ônibus para levar os convidados ao novo ponto de saída. Se não bastasse, as distâncias também aumentaram. A caminhada pela mata ficou maior e um caminho novo teve que ser improvisado. Os carregadores iniciais, que eram 10, precisaram ser 25 para dar conta do novo trajeto. As viagens de barco também aumentaram, de 50 minutos para 1h40, mudam horários, altera-se logística…
EBA! Tudo pronto, voos chegando de todo o Brasil e do mundo. E sabe-se lá, depois de quantas noites sem dormir, lá estava a Lívia, com um sorriso no rosto, respondendo com a mesma doçura, as mesmas perguntas de convidados pra lá de ansiosos. E mais, se arriscando ainda a chamar pelo nome todos ali. “Cada nome era uma história que eu lembrava. Conheço um pouquinho da intimidade de todo mundo que está aqui.”
Barco pra lá, barco pra cá. “Meu Deus, estamos colocando 500 pessoas no meio da selva” disse Barreto. É, e uma turma viciada em tecnologia, super conectada que teve que se adaptar ao fato de que internet e sinal de telefone não combinam bem com mata, rio, umidade do ar e tempestades tropicais. Lá dentro do auditório os convidados superultra-hightechs se deliciavam com uma tecnologia mais simples, a dinâmica proposta por um dos palestrantes, conhecida como tocô-colô, cabeça no ombro colega do lado e pé no colega da frente.

Dinâmica Tocô-Colô para integrar o público
E as palestras seguiam, correndo contra o relógio. Cada palestrante que pedia uns minutinhos a mais para uma dança, um vídeo ou uma explicação, era mais um frio na barriga de quem segurava na mão a programação extensa de 51 palestras e mais um almoço atrasado. Mas ninguém reclamava. A vontade de comentar, trocar ideias e pensar um mundo melhor, somada ao fuso horário, deixava todos meio desconectados do tempo.
E cenas lindas iam se formando, como uma mesa animada, que ao fim do jantar discutia uma melhor solução para os índios que sofriam na Amazônia. E de uma conversa mais do que enriquecedora entre palestrantes, tedxters e organizadores, nascia o Salve Kawahiva. Enquanto isso, a turma da logística se estressava com um barco que enfrentava problemas para navegar em trechos mais rasos do rio.
Muitos sucos de cupuaçu depois e alguns fios de cabelo branco a mais… Fim do último bloco, em silêncio, ouvindo o som da mata como nos havia sido solicitado, saíamos do auditório para almoçar, arrumar as malas e partir. Só quem não conseguia comer era o Helder. Com o prato esfriando na mesa, ele se levantava e abraçava cada convidado que vinha se despedir. E ainda tinha fôlego para agradecer a presença e lembrar que o #TEDxAM estava só começando.

"Fator Amazônia" torna tudo imprevisível
Calma que ainda não acabou. Quase todo mundo nos barcos e a natureza avisando, gritando, que ia chover. O céu despenca nas margens do Rio Negro, a Capitania dos Portos determina que ninguém pode navegar. Duas horas de espera para todo mundo. Lá estava de novo a ruga na testa do Barreto. “Gente, o pessoal deve estar exausto esperando no píer.” E qual não foi a sua surpresa ao chegar lá e ver que tinha até uma turma dançando na chuva?
É claro que, num lugar mágico, com pessoas interessantes, histórias incríveis sendo contadas, o TEDxAmazônia não teria outra escapatória senão deixar sua marca tatuada em quem sentiu tudo aquilo na pele. Mas nada disso se faz sem talento e profissionalismo. Fica aqui, mais uma vez, nossos aplausos a toda equipe que se empenhou na organização do evento e um carinho especial à Webcitizen, os caciques dessa tribo.
Saiba mais sobre o evento, acompanhe as notícias sobre o TEDxAmazonia no Busk:
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* Mariana Fonseca é jornalista, editora-assistente do Le Monde Diplomatique Brasil e fã da Webcitizen
18 comentários para “Nos bastidores do TEDxAmazônia”
Lendo e chorando; ponto.
Belo texto este seu. Eu estive lá também, felizmente! E sei que esta história está sendo contada em várias partes do mundo neste momento. E será contada ainda muitas e muitas vezes. Até que nossos amigos saibam. Para que nossos colegas de trabalho, conhecidos, parceiros saibam. E até nossos filhos, que eles também saibam que um punhado de gente se reuniu na floresta sonhando em mudar o mundo, e de cara, mudamos nós mesmos.
Saber um pouquinho mais dos bastidores e chefs desse verdadeiro caldeirão de idéias mais que inspiradoras, nos ajuda a entender o sabor maravilhoso que esse encontro transformador deixou em todos nós! Parabéns e mais parabéns a toda a equipe!
Foi realmente incrivel. Emocionante. Lindo texto, lindas memorias. Ainda não voltei.
Não fui, mas acompanhei como pude. E ainda estou acompanhando. E gosto das companhias…rs.
Parabéns pelo memorável evento, as ondas estão se formando… impacto certo.
Obrigado pela coragem e generosidade!
Mariana,
Belos texto e colagem dessa história linda que foi o TEDxAmazônia. Fora as palestras, o que mais me impressionou foi a generosidade e a “boa energia” de Helder, Lívia e Denis. Tudo de bom!
Todos os meus amigos sabem que minha relação com os TEDxs e a WebCitizen não pode ser melhor; graças a Lívia, Helder, Barreto, Mari e cia minha vida mudou, minhas teorias se tornaram prática, minhas vontades se tornaram ações, meu medo se tornou esperança, minha vida se tornou arte!
Saí do emprego infeliz para o empreendedorismo social, e hoje sou um dos organizadores do TEDxSudeste e estou abrindo minha companhia de teatro na Cidade de Deus, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro!
Estamos juntos, e não vamos parar nunca. Obrigado ao TEDx que vocês fazem e a cada nova parceria que sai deles.
Ah, esqueci de citar que virei voluntário de uma ong de inclusão digital (CDI) e isso tudo antes do 20 anos!
Gostaria de Agradecer a todos da WebCitizen por um dos melhores momentos da minha vida. Obrigado pelo grandioso momento proporcionado aos que estavam lá, conseguiram reunir pessoas incríveis em um ambiente mais ainda. E pelos poucos erros cometidos, não se preocupem: ainda somos humanos. beijos mil
foi fantástico!!! estou desequilibrado/emocionado até agora…. multiplicando, compartilhando, divulgado as ideias que foram tão brilhantemente apresentadas!
nunca mais serei o mesmo!
parabéns à organização e voluntários envolvidos no TEDx Amazônia!
INESQUECÍVEL!
Eu era um dos que estavam dançando na chuva!
Fantástica experiência física, intelectual e espiritual.
A todos, muito obrigado.
Falar o que depois do seu relato Mariana?
No primeiro dia, eu e @unatalie perdemos o barco por causa da reunião após o jantar e acampamos na sala de reuniões, no dia seguinte tomamos banho no quarto gentilmento cedido pelo Vincent. Agradecemos à Lívia por ter incluído uma camiseta na sacola.
Ao fazer um TEDx na Amazônia conseguiram conectar múltiplas tribos, no coração da Amazônia pnde ocorre o encontro de suas mais poderosas artérias: O Rio Negro e o Rio Solimões, nascendo o Rio Amazonas.
Ótimo texto, parabéns! Os dias na Amazônia foram realmente incríveis e inesquecíveis.
O sonho TED no Brasil vem sendo construído há anos por um grupo de desbravadores que a cada dia acrescenta novos seguidores apaixonados.
Perdí a conta de quantas vezes já chorei nestes 2 TEDx que realizamos.
Mas 2 fatos me marcaram, como se ainda faltasse algo a acrescentar, neste ‘filme’ q vivemos na Amazônia. Primeiro, o encontro dos organizadores de TEDx, uma comunidade que não pára de crescer. Dá gosto de ver! E segundo, mais importante, ter levado minha filha, Luiza, de 20 anos, para viver esta experiência. Ver os olhinhos dela brilhando não tem preço.
Este TEDx deu e continua dando dor de cabeça!
De tanta informação concentrada, de tanto ter que explicar (sem conseguir descrever com justiça) aos pobres coitados que não foram o que se passou por lá, e principalmente, pela ansiedade e disposição de mudar TUDO!!!
Parem as rotativas! Temos que reescrever um monte das coisas do cotidiano!!!
Quero colaborar, me digam como.
Sensacional, querida Mari. Bela homenagem.
Assim como tantos outros TEDxters que tenho encontrado por aí, eu tb não voltei não.
Saí de lá com muito aprendizado na bagagem, ainda absorvendo tudo, novos amigos, novas ideias. Esperança renovada, coragem acentuada e vontade de melhorar o mundo então, nem se fala. Grazie tutti!
Apesar de não ter sido abençoada com a oportunidade de participar do TEDxAmazônia, posso dizer que os relatos que venho ouvindo (como este texto excepcional da Mariana) têm me tocado de uma maneira surpreendente. De verdade. Não estava lá, e acho que por isso mesmo posso afirmar que o fenômeno TEDx é tamanho que as ideias estão sendo difundidas com a mesma paixão de quem as repassa… isso é fantástico! Parabéns a todos os envolvidos!
Ótimo texto, parabéns! Os dias na Amazônia foram realmente incríveis e inesquecíveis.