Aproximando cidadãos
16 de dezembro de 2009
Tags desta notícia:
Cop-15
Terceiro dia na Cop-15, já dá para sentir como é a dinâmica das coisas. Desde ontem, a entrada para representantes de ONGs foi restrita. Afinal, foram inscritas cerca de 35 mil pessoas e aqui dentro só cabem 15. Na manifestação que reuniu 100 mil pessoas nas ruas de Copenhague no último sábado, 800 manifestantes foram detidos – e dizem que 200 pessoas foram deportadas. Ontem e hoje, a estação de metrô Bella Center foi fechada algumas vezes por lotação. Para chegar aqui foi preciso descer na estação anterior e caminhar (quando um colega desceu nessa tal estação, a polícia jogava gás lacrimogênio em ativistas). O que se diz nos corredores é que a espera na fila lá fora foi de 5 a 8 horas – independente do país de origem ou idade da pessoa. Hoje encontrei o Carlos Nobre, cientista do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e um dos integrantes brasileiros do IPCC. Ele contou que tentou entrar no Bella Center desde segunda-feira, quando não conseguiu porque havia chegado tarde. Ontem, após duas horas na fila, desistiu. Hoje, então, é seu primeiro dia aqui.
Dia diferente dos outros. De cara, dá para ver que a coisa ficou séria. Bolinhos de jornalistas, câmeras e microfones em punho, ao redor de autoridades. Mais pessoas de terno e gravata e menos de camisetas com dizeres como “There is no Planet B”. Sim, começaram as chamadas reuniões de alto-nível. Tentei entrar numa sala, mas informaram que ontem as delegações receberam um segundo crachá para distribuir às poucas pessoas que estariam autorizadas a ingressar nessas plenárias. Os nomes de Hugo Chávez e Evo Morales constam na programação de hoje. Ontem, teve Príncipe Charles. E devem ter muitos mais por aí, quem sabe, na baia ao lado. O jeito para a maioria das pessoas acompanharem as discussões passou mesmo a ser as TVs espalhadas pelo Bella Center, com transmissão ao vivo do que se diz das portas para dentro.

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o embaixador Figueiredo (que chefiava as nagociações brasileiras até a chegada da ministra), em coletiva de imprensa ontem. Todo dia às 18h30 o Brasil dá essa coletiva, em que podem entrar não só a imprensa como toda delegação brasileira.
Resumindo: a programação aberta a quase todos se reduziu. Ok, sejamos justos: os side events continuam por aí. Mas quem quer saber de projetos hiperlocais enquanto líderes mundiais estão decidindo o futuro da humanidade a distância de uma parede? Ontem sim os side events foram bem animados. Houve, na mesma sala, divindo o mesmo tempo e a mesma mesa, o governador do estado de São Paulo José Serra e o governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger. Não consegui pegar um dos ingressos que foram distribuídos horas antes. Mas fui a um debate promovido pela CNN e youtube (vou postar logo um vídeo sobre esse projeto) com nomes como Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e Bjorn Lomborg, autor do livro Cool it e conhecido como o rei dos céticos, por ser da turma que não concorda com a corrida contra o aquecimento global. O ex-vice-presidente dos EUA e prêmio Nobel Al Gore também falou ontem. Os ingressos também tinham se esgotado (esses dois eventos surgiram de repente!). Sorte que um colega conseguiu entrar e filmou o discurso final de Gore, em que ele fala “de coração a coração”, clamando para que os líderes pensem em quem são e decidam pela coisa certa. Na entrada do Bella Center hoje, uma mulher gritava a quem passava mostrando o crachá: “today, don’t be stupid, be smart”. É o que conclamam todos que ficaram de fora do Bella Center. E é o que também esperam aqueles que ficaram pra fora das salas de decisões aos líderes.
Vídeo e foto gentilmente cedidos por Marcelo Borja
Como funciona a Cop-15
O Bella Center, local onde acontece o evento, é um espaço de exposição enorme, com várias salas e galpões. Logo na entrada há um salão enorme, o Hall H, cheio de stands de ONGs, universidades e projetos ambientais com mais de 200 exposições. Ali é possível conhecer desde a Alliance for Rural Eletrification (Are), associação internacional que trabalha para o acesso à energia renovável em países em desenvolvimento até a Tck Tck Tck, campanha internacional para que cidadãos pressionem os governantes nessa Cop-15 (a campanha transcorreu nos últimos meses com representantes inclusive no Brasil).
Saindo dali e seguindo por um corredor à direita se chega ao stand onde a cada manhã é distribuída a programação do dia – e também os drafts, textos que estão sendo gerados nas negociações. As atividades na Cop-15 se dividem entre: plenárias (normalmente uma mesa redonda assistida por várias pessoas, são salas imensas, cheias de cadeiras), as reuniões (essas só são abertas para as delegações – observadores e ONGs não podem entrar), e os side events, ou eventos paralelos. Só de side event durante a Cop são mais de 250! São países apresentando seus projetos e ideias. Como se não bastasse, ainda há as programações dentro das salas dos países – localizadas no setor de delegações, que fica depois de um outro hall onde se localizam as plenárias e salas de reuniões. Resultado: com tanta coisa, muitos horários se encavalam e é preciso escolher. E como o espaço é muito grande, o tempo de deslocamento de um hall para outro pode ser grande (tipo 15 minutos). Ah, e a programação pode mudar instantaneamente. De repente, algumas pessoas passam distribuindo pnafletos de um evento novo que acaba de surgir.